O Amazonas vive uma nova crise hídrica, com 47 municípios em situação de emergência devido à seca, afetando mais de 146 mil famílias, conforme o último boletim da Defesa Civil estadual. As comunidades ribeirinhas enfrentam dificuldades significativas para se deslocar, enquanto especialistas apontam falhas estruturais que dificultam o acesso à água potável e serviços essenciais.
Dificuldades nas comunidades rurais
Na comunidade Nossa Senhora do Livramento, localizada no Tarumã-Mirim, zona rural de Manaus, Anacá Miranha, uma idosa de 82 anos, compartilha suas experiências após relatar os impactos da seca em 2023. Ela, que lidera um grupo de idosos, viu suas atividades serem suspensas devido à incapacidade de alguns membros de se deslocarem. “Eu tô com o movimento parado, porque o rio tá seco, o idoso que mora lá longe não pode vir pra cá”, disse.
Impacto na assistência social
Com a seca, a mobilização para ajudar aqueles que precisam se torna ainda mais difícil. Anacá, que depende da ajuda de um filho para fazer compras, destaca a necessidade de suporte para os mais vulneráveis. “Tem pessoas mesmo necessitadas, entende? Necessitadas e a dificuldade é muito grande”, comentou. Ela também ressaltou o papel importante das equipes de saúde que utilizam pequenas embarcações para atender a população, mas defende que mais unidades de saúde sejam instaladas nas áreas afastadas.
Consequências da estiagem
Pesquisas do Instituto Mamirauá, em Tefé, evidenciam que a seca de 2023 e as condições atuais prejudicaram o abastecimento de água, a pesca e a agricultura nas comunidades que dependem do transporte fluvial. O pesquisador Ayan Fleischmann aponta que, apesar de alguns avanços na segurança hídrica, como a construção de poços artesianos, muitas comunidades ainda enfrentam dificuldades significativas.
“Comunidades de terra firme costumam ter acesso a poços e passar melhor pelas secas. No entanto, comunidades de várzea têm muito mais dificuldade para acessar a água potável”, explicou Fleischmann. Além disso, a saúde nas localidades já sofria com problemas antes da estiagem, que foram agravados pelo isolamento, tornando o acesso a medicamentos e atendimentos médicos ainda mais complicado.
Impacto na educação
As dificuldades no transporte também afetam a educação, com muitos estudantes impossibilitados de chegar às escolas devido à estiagem. Fleischmann alerta que a falta de infraestrutura adequada em algumas instituições torna as aulas impraticáveis, especialmente com o calor intenso.
Ações das prefeituras e desafios futuros
Anderson Sousa, presidente da Associação Amazonense de Municípios (AAM), revelou que o estado enfrenta emergências climáticas relacionadas à seca e a incêndios florestais. Até outubro, 41 municípios estavam com processos relacionados à estiagem, mas muitos ainda enfrentam entraves para liberar recursos federais para assistência.
O cenário futuro é preocupante, especialmente com a influência do fenômeno El Niño nas chuvas da Amazônia. Fleischmann destaca que as temperaturas dos oceanos estão acima da média, o que pode impactar o ciclo hidrológico e resultar em uma seca severa em 2026. “Se esses níveis dos rios, que já estão abaixo da média agora, tiverem um crescimento lento nos próximos meses, a gente pode, de fato, ter uma cheia fraca no próximo ano e, em consequência, uma seca forte”, alertou.
Embora muitas comunidades já estejam sentindo os efeitos da seca, o pesquisador ressalta que a situação atual, por enquanto, não é tão grave quanto a vivida em 2023 e 2024.







