O aumento no custo dos chips devido à crescente demanda por produtos relacionados à inteligência artificial pode provocar mudanças significativas na indústria eletrônica de Manaus. Essa situação chama a atenção para o impacto que a globalização e as decisões de investimento em tecnologia têm sobre a produção local.
Pressões sobre o Polo Industrial de Manaus
A Samsung anunciou que a alta demanda por servidores tem elevado os preços das memórias utilizadas em diversos dispositivos. Em seu relatório de outubro, a empresa projetou que, até 2027, a demanda por memórias vinculadas à inteligência artificial superará a capacidade de produção da indústria. Além disso, a companhia indicou que planeja estabelecer contratos de longo prazo para garantir o fornecimento desses componentes.
Esse cenário pode gerar desafios para o Polo Industrial de Manaus (PIM), que pode enfrentar dificuldades financeiras antes mesmo de faltar um componente essencial. A antecipação de compras requer capital de giro, e manter estoques maiores pode aumentar os custos operacionais. Além disso, a substituição de peças exige testes rigorosos e aprovação técnica, resultando em margens de lucro mais apertadas.
Dinâmica dos semicondutores no mercado
Os semicondutores formam um mercado complexo e diversificado. As memórias de alta largura de banda, conhecidas como HBM, utilizadas em processadores de IA, possuem características distintas em relação às memórias comuns nos eletrônicos de consumo. Essa diferença afeta as decisões das fabricantes sobre quais produtos priorizar e quais linhas de produção expandir.
De acordo com uma análise da TrendForce, as memórias destinadas a servidores estão mantendo a oferta sob pressão, enquanto a demanda por memórias DRAM, amplamente usadas em TVs e dispositivos de rede, está restrita. Embora isso não indique que as fábricas em Manaus estejam sem componentes, é essencial monitorar as tendências do mercado.
A TrendForce também observou que, até aquele momento, os fornecedores estavam cumprindo os volumes acordados com fabricantes de computadores. Entretanto, algumas marcas estão reduzindo a capacidade de SSDs nos computadores convencionais para conter custos, o que pode resultar em mudanças nas especificações e aumentos de preço para o consumidor.
A produção e o papel de Manaus na cadeia de suprimentos
Manaus desempenha um papel significativo na cadeia de suprimentos de eletrônicos, participando ativamente em várias etapas do processo. A empresa TERA, por exemplo, se destaca no encapsulamento e teste de semicondutores, fornecendo soluções de armazenamento para fabricantes de smartphones na China.
Além disso, um acordo com a Biwin visa expandir a produção de memórias na região, promovendo a transferência de tecnologia e o desenvolvimento de soluções para eletrônicos fabricados no Brasil. Os resultados desse acordo poderão ser percebidos na qualidade e na variedade dos produtos fabricados localmente.
A ADATA também está ampliando sua presença na capital amazonense, com planos de dobrar sua área fabril e iniciar uma nova operação em parceria com a Giga Computing até dezembro de 2026. Este movimento pode aumentar a capacidade de Manaus na infraestrutura digital, embora a fabricação de equipamentos e o desenvolvimento de chips sejam processos distintos.
Desafios e oportunidades para o futuro
Apesar do crescimento na produção local, a dependência de componentes estrangeiros persiste. Produzir em Manaus requer conformidade com as normas do Processo Produtivo Básico (PPB), e o desenvolvimento de novas competências tecnológicas é fundamental para a sustentabilidade da indústria.
Com a expansão das linhas de produção, há potencial para maior investimento em engenharia e desenvolvimento local. As parcerias com universidades e institutos tecnológicos, como o INDT e o Instituto Eldorado, são cruciais para garantir que as necessidades de cada fábrica sejam atendidas.
Manaus deve se concentrar em como as competências industriais estão sendo aprimoradas e se novos clientes estão sendo conquistados. Embora a quantidade produzida seja um indicador importante, o conhecimento acumulado é essencial para assegurar a continuidade do crescimento.
A cidade pode encontrar oportunidades mesmo em um cenário que encarece alguns insumos. Gerenciar essa dependência e expandir as competências locais será um desafio contínuo. Na disputa por chips, será vital garantir a qualidade dos componentes recebidos e aumentar o valor dos produtos finalizados. Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, com atuação na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.







