A Amazônia enfrenta sérios obstáculos na melhoria de sua infraestrutura, devido à escassez de recursos, à falta de continuidade orçamentária e à dificuldade de estabelecer prioridades. Esses fatores comprometem o acesso da população a serviços essenciais e dificultam o desenvolvimento econômico da região. Para reverter esse quadro, são imprescindíveis investimentos sustentáveis a longo prazo e um planejamento que considere as especificidades ambientais e sociais da área.
Necessidade de investimentos sustentáveis
Durante o evento Diálogos Amazônicos, promovido pela Fundação Getulio Vargas, especialistas em logística, gestão pública e empresários ressaltaram a urgência de um plano robusto para a infraestrutura da Amazônia, que é uma das regiões com os piores indicadores do Brasil nesse aspecto. Cláudio Frischtak, presidente da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios, destacou que as lacunas em áreas como saneamento, energia e transporte são exacerbadas pela complexidade geográfica e pelas mudanças climáticas.
Frischtak enfatiza que, apesar da necessidade de melhorar a infraestrutura, a proteção da floresta deve ser uma prioridade nas decisões de investimento. Ele sugere que a modernização das rodovias e a utilização das hidrovias são essenciais para reduzir o isolamento das comunidades, mas sem comprometer o meio ambiente.
Saneamento básico e crise climática
Outro ponto crítico levantado foi o saneamento básico, que enfrenta desafios históricos na Amazônia, agravados pela crise climática e pela dificuldade de acesso à água potável. O especialista defende que é preciso acelerar os investimentos nesse setor e considerar soluções descentralizadas que possam atender as comunidades que não possuem serviços adequados.
Fabiana Lucena Oliveira, professora da Universidade do Estado do Amazonas, acrescenta que é necessário estabelecer um programa permanente de investimentos em infraestrutura e resiliência climática, com uma perspectiva de dez anos. Ela sugere que a adaptação da infraestrutura hidroviária é crucial, propondo a construção de portos flutuantes e a implementação de melhorias na sinalização e monitoramento das condições de navegação.
Planejamento estratégico e governança
A falta de um planejamento estratégico e de prioridades claras, segundo Frischtak, leva à má alocação de recursos e à dificuldade na execução de projetos significativos. Joelson Sampaio, professor da Escola de Economia de São Paulo, reforça essa visão, afirmando que a consideração das características locais e a inclusão de requisitos ambientais desde o início dos projetos são fundamentais para evitar atrasos e complicações.
Luiz Guilherme Rodrigues de Mello, do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), aponta que a realização de obras na Região Norte requer adaptações específicas. Ele menciona como exemplo a dificuldade de acesso a materiais de construção em áreas como o Acre, o que pode elevar os custos. Rodrigues também destaca a importância da previsibilidade orçamentária para garantir a continuidade de projetos.
Desafios orçamentários e a necessidade de um esforço contínuo
Para atender à população da Amazônia, que conta com cerca de 29 milhões de habitantes, os investimentos em infraestrutura precisam ser adequados às distâncias e condições locais. Frischtak alerta que o Brasil destina apenas 2,2% do PIB ao setor, enquanto o ideal seria entre 4,5% e 4,6%. Essa diferença representa um déficit de aproximadamente R$ 300 bilhões anualmente, e para alcançar os níveis necessários de investimento, um esforço contínuo por 15 a 20 anos é imprescindível.
Os especialistas concordam que a proposta de um planejamento integrado, que una recursos públicos e privados, é vital para superar os desafios de infraestrutura na Amazônia e garantir um desenvolvimento sustentável para a região.







